
O setor nuclear brasileiro alcançou um marco histórico com o início formal do projeto do primeiro microrreator nuclear do país. No dia 9 de dezembro, o Instituto de Engenharia Nuclear (IEN), unidade técnico-científica da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), realizou uma cerimônia no Rio de Janeiro para marcar o início do processo de licenciamento do local onde será construída a Unidade Crítica (UCRI) do microrreator nuclear brasileiro.
O evento simbolizou o avanço de uma iniciativa estratégica voltada ao desenvolvimento de tecnologias limpas, à inovação científica e ao fortalecimento da soberania energética nacional. A Unidade Crítica será instalada nas dependências do Reator Argonauta, no IEN/CNEN, onde serão realizados os trabalhos de instrumentação e testes do microrreator.
O processo de licenciamento teve início oficialmente em 2 de dezembro de 2025, quando o IEN/CNEN encaminhou ofício à Autoridade Nacional de Segurança Nuclear (ANSN), responsável pela regulação e fiscalização das atividades nucleares no Brasil, solicitando a autorização para a construção da unidade.
Parceria institucional inédita
O projeto do microrreator nuclear brasileiro é resultado de uma ampla articulação institucional, reunindo 13 parceiros entre empresas, órgãos de fomento, universidades e instituições científicas. Participam da iniciativa:
Empresas privadas: Diamante Energia, Terminus P&D em Energia e Indústrias Nucleares do Brasil (INB).
Órgãos de apoio e fomento: Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).
Instituições científicas e universidades: Amazônia Azul Tecnologias de Defesa (Amazul), Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (IPEN/CNEN), Universidade Federal do Ceará (UFC), Instituto Nacional de Telecomunicações (Inatel), Marinha do Brasil, Universidade Federal do ABC (UFABC) e Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
A solenidade contou com a presença de representantes da maioria das instituições envolvidas, reforçando o caráter colaborativo e estratégico do empreendimento.
Apoio governamental e financiamento
Durante o evento, o secretário de Ciência e Tecnologia para o Desenvolvimento Social do MCTI, Inácio Arruda, destacou que o projeto do microrreator nuclear representa uma conquista da ciência brasileira e reafirmou o compromisso do Governo Federal com o fortalecimento do setor científico e tecnológico.
“Ao conduzir o Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia, o presidente da República reafirma sua confiança na ciência, que pode beneficiar o nosso país em todas as áreas, especialmente na área de energia”, afirmou o secretário.
Arruda também ressaltou a decisão política que viabilizou o financiamento do projeto, no valor total de R$ 50 milhões — sendo R$ 30 milhões provenientes da Finep, por meio do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), e R$ 20 milhões aportados pela Diamante Energia.
Inovação tecnológica e formação de recursos humanos

A mesa de autoridades foi composta pelo presidente da CNEN, Francisco Rondinelli Júnior; pela chefe de Avaliação de Segurança e coordenadora de Emergência da ANSN, Nélbia da Silva Lapa; pelo diretor de Pesquisa e Desenvolvimento da CNEN, Wilson Calvo; pelo diretor de Gestão Institucional da CNEN, Pedro Maffia; e pelo diretor do IEN/CNEN, Cristóvão Araripe Marinho.
Em suas falas, os dirigentes destacaram o papel histórico do IEN/CNEN como instituição pioneira no desenvolvimento da ciência nuclear brasileira, lembrando que o Instituto foi responsável, nos anos 1960, pela construção do reator Argonauta, o primeiro reator de pesquisa totalmente projetado e montado por técnicos e engenheiros brasileiros.
A Unidade Crítica do microrreator nuclear operará em potência extremamente baixa, da ordem de 100 watts, suficiente para sustentar a reação nuclear em cadeia de forma controlada. Nessa fase, os pesquisadores irão aferir parâmetros neutrônicos fundamentais e validar modelos teóricos, contribuindo para o avanço do conhecimento científico e para a formação de recursos humanos altamente qualificados na área nuclear.
Segundo o diretor do IEN/CNEN, Cristóvão Araripe Marinho, o projeto está alinhado aos grandes desafios contemporâneos, como a descarbonização, a transição energética e o desenvolvimento sustentável, destacando-se por não emitir gases de efeito estufa.
Avanços regulatórios e debate técnico
Representando a ANSN, Nélbia Lapa ressaltou o compromisso da Autoridade em atualizar as normas de proteção radiológica e segurança nuclear para contemplar projetos inovadores como o microrreator, que apresenta características como modularidade e flexibilidade operacional.
Na sequência da cerimônia, foi realizada uma mesa-redonda dedicada às tecnologias associadas aos microrreatores nucleares e ao papel das universidades e instituições de pesquisa nesse desenvolvimento. O debate foi mediado pelo professor Ênio Pontes de Deus, da Universidade Federal do Ceará, e contou com apresentações de especialistas que abordaram desde o desenvolvimento de tecnologias críticas até a fabricação aditiva de componentes para o microrreator.
Aplicações e perspectivas futuras

A cerimônia foi encerrada com o descerramento de uma placa comemorativa no salão do Reator Argonauta, simbolizando o início oficial do empreendimento. A expectativa é que, até 2033, o primeiro microrreator nuclear brasileiro esteja pronto para entrar em operação.
No futuro, os microrreatores nucleares poderão ser utilizados para gerar eletricidade em municípios com menos de 20 mil habitantes, beneficiando cerca de 30 milhões de brasileiros. Devido ao seu porte compacto, essas unidades também poderão atender regiões de difícil acesso, como comunidades ribeirinhas e áreas remotas, além de aplicações em data centers, plataformas offshore, bases militares e diversos setores industriais.
Segundo Adolfo de Aguiar Braid, diretor executivo da Terminus, o Brasil reúne todas as condições científicas, tecnológicas e industriais para dominar essa tecnologia. “Temos capacidade para projetar, fabricar e operar microrreatores nucleares, além de dominar todo o ciclo do combustível. Isso representa um enorme benefício estratégico para o país e para a população brasileira”, afirmou.
ASSISTA ao vídeo da Diamante Energia sobre o projeto do microrreator nuclear brasileiro



