
Na corrida da indústria naval para cumprir metas cada vez mais rigorosas de redução das emissões de dióxido de carbono (CO₂), a propulsão nuclear volta ao centro do debate como uma alternativa possível para tornar o transporte marítimo mais limpo e eficiente. Capazes de operar por longos períodos sem reabastecimento e praticamente sem emissões diretas de gases de efeito estufa, os navios nucleares reaparecem como uma solução tecnológica promissora — embora cercada de desafios técnicos, econômicos e regulatórios.
O debate não é novo. Em 1959, o lançamento do NS Savannah, nos Estados Unidos, simbolizou o otimismo de uma era em que a energia nuclear era vista como o futuro do transporte. Movido por um reator nuclear em vez de motores a diesel, o navio mercante operou entre 1962 e 1970, transportando cargas e passageiros ao redor do mundo como vitrine do uso pacífico da fissão nuclear. Apesar do caráter inovador, o projeto foi encerrado principalmente por razões econômicas, altos custos operacionais e restrições de acesso a portos.
Hoje, apenas alguns países ainda utilizam navios de propulsão nuclear, quase exclusivamente para fins militares, como porta-aviões e submarinos. A Rússia mantém, por exemplo, uma frota de quebra-gelos nucleares que operam na Rota do Mar do Norte, no Ártico. Já navios mercantes e de passageiros praticamente desapareceram desse cenário. No entanto, a crescente pressão por descarbonização reacende o interesse pela tecnologia.
O transporte marítimo é responsável por cerca de 80% do comércio global e, ao mesmo tempo, por uma parcela significativa das emissões de CO₂. A maior parte da frota mundial ainda utiliza óleo combustível pesado, altamente poluente. Somadas, as emissões do setor se equiparam às de grandes economias industriais. Diante disso, a Organização Marítima Internacional (IMO) estabeleceu a meta de alcançar emissões líquidas zero até aproximadamente 2050 — um desafio que dificilmente será atendido por uma única tecnologia.
Segundo especialistas, a principal vantagem da propulsão nuclear é clara: a ausência de emissões diretas de carbono durante a operação. Além disso, o altíssimo conteúdo energético do combustível nuclear permite que navios atravessem oceanos por anos sem reabastecer. O NS Savannah, por exemplo, poderia dar até 14 voltas ao mundo com uma única carga de combustível, algo impensável para navios convencionais.
Outro fator que impulsiona o debate atual são os avanços tecnológicos. Reatores de nova geração, muitas vezes classificados como de “Geração 4”, prometem níveis de segurança significativamente superiores aos do passado, baseados em princípios físicos que reduzem a necessidade de intervenção humana em situações de emergência. Esses avanços podem facilitar a aceitação regulatória e reduzir resistências históricas relacionadas à segurança nuclear.
Consórcios internacionais, como o norueguês NuProShip, já estudam diferentes projetos de reatores compactos para uso marítimo, avaliando não apenas a segurança, mas também a viabilidade econômica. Estimativas preliminares indicam que, em alguns cenários, os custos de combustível poderiam ser até 40% menores do que os do óleo combustível pesado, especialmente se os reatores puderem ser produzidos em escala industrial.
Apesar do potencial, os obstáculos ainda são consideráveis. A IMO iniciou recentemente a atualização das normas internacionais para navios civis nucleares, que hoje são baseadas em regras da década de 1980. Questões como gerenciamento de resíduos radioativos, riscos em caso de naufrágio, segurança contra atos terroristas, aceitação por autoridades portuárias e cobertura por seguradoras ainda precisam ser amplamente debatidas e regulamentadas.
Especialistas apontam que, embora a tecnologia avance rapidamente, os entraves legais, institucionais e sociais tendem a demandar mais tempo do que o próprio desenvolvimento dos navios. Assim, mesmo com expectativas otimistas, a adoção em larga escala da propulsão nuclear no transporte marítimo comercial dificilmente ocorrerá no curto prazo.
Ainda assim, o retorno do tema à agenda internacional revela um movimento claro: diante da urgência climática e das limitações das soluções convencionais, a energia nuclear volta a ser considerada como parte do debate sobre o futuro sustentável dos mares e do comércio global.
Fonte: WD



